Como Putin consegue jogar em dois campos

Nota introdutória. Este é um artigo de opinião escrito por Ricardo Silvestre, dos Democratas.

_ _

“Não é nosso interesse estar a dividir alguma coisa, ou pessoas umas das outras, na Europa. Pelo contrário, nós queremos ver uma União Europeia unida e prospera porque a União Europeia é o nosso maior parceiro económico e comercial. Quanto mais problemas existirem na União Europeia maiores são os riscos e as incertezas para nós.”

Estes “nós” são a Federação Russa, e quem disse estas palavras foi Vladimir Putin, pouco antes de viajar para Viena para se encontrar com Sebastian Kurz, o Chanceler Austríaco.

Encorajado para uma onda pró-Russa na Europa, que vai desde a Grécia, à Hungria, à Itália, Putin parece que quer mudar a estratégia para a segunda-parte da primeira “meia-final” do campeonato do mundo de influências geo-estratégicas. Já a ganhar por 3-0 na outra meia-final, aquela que coloca frente-a-frente também a Rússia, só que neste caso contra os Estados Unidos de Trump, Putin mostra que consegue mesmo jogar em vários campos ao mesmo tempo.

putinkick

Depois das conquistas com o principal adversário da guerra-fria, ao ponto da Administração Trump estar à porta de dar a Crimeia “de graça” no encontro de Helsínquia a acontecer no dia 11 deste mês, depois de Trump ter expressado pessoalmente a vontade de ter a Rússia de volta ao G7, ou de tentar com que as sanções económicas sejam retiradas (sem sucesso para já num raríssimo momento de coragem por parte dos Republicanos em Washington), ou insistindo em dizer que acredita em Putin quando este lhe assegura que Moscovo nada tem a ver com os ataques ao processo eleitoral de 2016 para a Presidência dos Estados Unidos, Putin vira-se agora para a Europa, numa frente de ataque com dois pontas de lança que podem dar dores de cabeça aos “defesas” da Europa.

Partidos populistas que chegaram ao poder nos últimos anos têm mostrado um interesse em que haja uma aproximação à Federação Russa, sugerindo também deixar cair as sanções resultantes da tomada da Crimeia e ataques à Ucrânia. Mateeo Salvini, o lider da Liga do Norte, e vice-presidente Italiano já expressou esse desejo várias vezes, e o Primeiro-ministro Conte colocou-se ao lado de Trump ao dizer que achava que a Rússia também devia voltar a fazer parte dos G’s, assim como disse no Senado Italiano que devia “haver uma abertura para a Rússia” e que as sanções contra esse país “causam danos à sociedade civil Russa”.

A Áustria, que vai vai assumir a Presidência da União Europeia, foi dos poucos países que não expulsou diplomatas russos depois do envenenamento do ex-espião Sergei Skripal e da sua filha Yulia Skripal. Não contente com essa demonstração de “amizade”, o parceiro de coligação no governo austríaco, o Partido da Liberdade, assinou um acordo com Putin em 2016 para a cessação das sanções económicas à Rússia.

putkutz

E de lembrar que a Frente Popular em França continua a ser uma ameaça de chegar ao poder, ou partidos mais pequenos mas que podem desequilibrar equilíbrios partidários, como é o caso da Alternativa para a Alemanha, sendo que nestes dois exemplos está amplamente documentado o apoio financeiro que Moscovo dá a estes dois partidos.

O outra “ponta de lança”, e o argumento que, se a União Europeia precisa de aliados contra uma cada vez mais errática Administração Trump, com as suas guerras comerciais, ameaças de sair de acordos, enfraquecimento da NATO, das Nações Unidas, há um que, no meio da “loucura” que vem do outro lado do Atlântico, até parece um actor razoável e sereno.

maga

É verdade que há a questão da Crimeia, da Ucrânia, da Síria, da intrusão em processos eleitorais, mas será que até se podem encontrar alguns “pontos comuns”, cedendo a Rússia nalgumas coisas e a União Europeia noutras? Macron e Merkel têm mantido uma posição forte em relação à Rússia ter de abandonar um conjunto de ações ofensivas, principalmente na Europa de Leste, mas também é verdade que têm fechado negócios e deixando a porta entreaberta para entendimentos.

Com a Cimeira da NATO, e o encontro Putin-Trump logo a seguir, o que é importante, e esperamos que o governo Português o faça de uma forma inequívoca e decisiva, é fazer entender à Rússia que não pode ameaçar militarmente os países que antes estavam na sua órbita de influência, que tem de dar passos concretos para a protecção de uma imprensa livre e de oposição política interna, que deve dar mais liberdade aos seus habitantes e não os perseguir politicamente, ou até mesmo pior que isso, tanto no seu solo como em outros países.

E, principalmente, a União Europeia deve manter a sua política de condenação à violação da lei internacional, onde nenhum território ou Estado pode ser adquirido por outro com recurso à força, e seguindo o Helsinki Final Act, onde a Rússia se comprometeu a não violar nenhuma fronteira ou integridade territorial. E isso implica continuar com as sanções económicas e proibição de viajar para a União Europeia de Russos responsáveis pelo processo das ações militares contra a Ucrânia.

crimeia

Se Putin se quer aproximar da Europa Ocidental, tentando ocupar o vazio que está a ser criado pela arrogância e falta de respeito do Presidente Americano, também ele terá de mostrar que tem algo mais para oferecer do que intransigência e jogo duplo.

Search