Uma “granada” em cima de um “barril de pólvora” no topo de um “paiol de explosivos”

Nota introdutória. Este é um artigo de opinião escrito por Ricardo Silvestre, dos Democratas.

Nas últimas semanas temos assistido ao adensar do longo enredo político centrado no Médio-Oriente, só que agora com ainda mais actores instáveis, retórica inflamatória, ambições geoestratégicas e ameaças de “destruição mútua assegurada”.

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O Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse, aquando do encontro com a Chanceler Angela Merkel: “O maior desafio que o mundo civilizado enfrenta hoje é o perigo de Estados Islâmicos radicais, que perseguem formas de obter armas nucleares e de fomentar o terror. E o maior perigo é o Irão”.

Já o supremo líder Iraniano, Ayatollah Ali Khamenei escreveu no Twitter  “A nossa posição contra Israel é a mesma que sempre tivemos, Israel é um cancro maligno na região da Asia Oeste, que deve ser removido e erradicado”.

Porém, se pudesse pensar que seria só ao nível político, o responsável máximo pelo exército Iraniano, Major General Abdolrahim Mousavi disse que “forças Iranianas estão a trabalhar para aniquilar Israel” e que pode predizer que vão conseguir esse objectivo em 25 anos. Por sua vez, o Ministro da Defesa Israelita, Avigdor Lieberman disse que o exército de Israel está pronto para retaliar, atingindo Teerão se necessário.

E tudo isto enquanto uma Liga Árabe-Israelita se avizinha, com Telavive a fazer ligações com vários países Árabes (onde se destaca a Arábia Saudita) para criar, possivelmente, uma coligação militar pronta a defrontar o Irão, com a justificação de ser um “ataque preventivo” no caso este país recomeçar o seu programa atómico.

Uma união, por muito que pareça contraintuitiva entre árabes e judeus, fica mais claro quando se observa num prisma que distorce sempre a realidade do terreno, que é a questão religiosa. Netanyahu, num claro momento de pragmatismo politico, abriu o jogo ao explicar que uma das motivações para o Irão é travar uma “guerra religiosa”. Uma óbvia referência à intolerância que os Xiitas Persas têm com os judeus, mas também com os Sunitas

Enquanto a Europa tenta encontrar um meio caminho, com Macron, Merkel e May a lideram o processo, para manter activo o Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), os ventos parecem estar a mudar para uma situação de confronto inevitável.

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A Arábia Saudita, com uma guerra civil a sul (Yemen), um Iraque um pouco “ao sabor da corrente”, a Síria em convulsão, e o apoio dos Iranianos a grupos como o Hamas, Islamic Jihad, e Hezbollah, tem liderado uma “ofensiva de charme” com os Estados Unidos (numa relação ao mesmo tempo simbiótica e perversa entre o jovem monarca o genro de Donald Trump Jared Kushner) que foi uma das razões para a saída dos Estados Unidos do JCPOA. Uma das outras coisas que fizeram foi uma aproximação a Israel. Em Dezembro de 2017, bin Salman reuniu-se com líder Palestino, Mahmoud Abbas para lhe apresentar um plano de paz (proposto pelos Americanos) onde os Israelitas eram francamente mais beneficiados. Isto depois de, um mês antes, o Army Chief of Staff de Israel, o Lieutenant-General Gadi Eizenkot oferceu-se para colaborar militarmente com a Arábia Saudita contra o Irão. Aplica-se aqui a velha máxima “o inimigo de meu inimigo…”

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E depois temos a Rússia.

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Moscovo quer ter o “melhor dos dois mundos”, boas relações com Israelitas (na Victory Day Parade de 9 de maio Netanyahu, esteve ao lado de Putin na Praça Vermelha) e com o Irão, que tem sido um cliente dos Russos de longa data mas também um parceiro a estabilizar a Síria, e a ajudar a manter Assad no poder. Para além disso há questões militares. A Rússia tem uma base naval em Tartus, que tem um peso importante no Médio-Oriente, enquanto para Teerão, uma Síria unificada sob o regime de Bashar al-Assad serve de tampão às claras tendências expansionistas de Israel (anexação de territórios a norte), assim como os Iranianos podem continuar a apoiar os movimentos terroristas com o Hamas e o Hezbollah.

O que pode fazer a Europa para ajudar?

Primeiro, tentar alterar a narrativa. As ameaças de “erradicamos isto”, ou “aniquilamos aquilo”, que apesar de para alguns analistas são vistas como um “discurso para o interior” – ainda mais quando Netanyahu está com graves problemas legais, e Teerão tem de agradar a moderados e apoiantes de “linhas duras” – está a assumir contornos algo apocalípticos, e como tal nada conduzíveis a um solução (mais) pacífica.

Depois, oferecer-se para ajudar. Para além de manter o JCPOA, e com isso a diminuição de sanções económicas com o Irão, servir de mediador entre todas as partes, Rússia, Irão, Israel, Autoridade Palestina, Hezbollah, Síria (porque não convidar os Estados Unidos e a Arábia Saudita?) e aproveitar alguma da experiência acumulada, poderio financeiro, e tacto diplomático para oferecer soluções para problemas, aproveitando algumas das fragilidades daqueles que estão “sentado no barril de pólvora por cima do paiol de explosivos”, sejam económicas, sejam de opinião pública, sejam de falta de meios, sejam por alianças históricas.

Portugal também deve ter uma parte activa no processo. Ignorando a histeria constante no espectro político sobre quem são “os mau e os bons da fita”, numa situação onde se exige nuance, paciência e visão clara. Para assumirmos um papel de mediadores, temos de saber encontrar um “meio-termo” político, e diplomático, que ajude a trazer os outros para a mesa, e negociar uma paz douradora.

 

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