35 milhões de Americanos que votaram em Trump, não votaram em Trump

Nota introdutória: este é um artigo de opinião escrito por Ricardo Silvestre, dos Democratas, reagindo ao que se está a passar nos Estados Unidos.

O meu interesse pela política americana não é puramente académico. Tendo vivido nos Estados Unidos durante quatro anos, especialmente desde o tumultuoso período do pós 11 de setembro, até o primeiro ano do segundo mandato da Administração George W. Bush.

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Nesses primeiros anos, vi-me envolvido em discussões tão díspares como defender a América perante Americanos que achavam que o ataque ao World Trade Center e ao Pentágono tinha sido pouco, e que a América “merecia muito pior”, até ter de dizer a outros Americanos que não podiam ter uma perspetiva do mundo onde as coisas se resolviam lançando uma bomba nuclear sobre o Iraque “e fazer daquilo um parque de estacionamento com bombas de gasolina”.

Foi nessa altura que me interessei pelo Partido Democrata. Apesar de Al Gore e John Kerry terem perdido (Al Gore não perdeu, mas enfim) as eleições para a Presidência, quando um Senador de primeiro termo do Illinois, um tal de Barack Hussein Obama, emergiu como a estrela mais radiante dos Democrats, eu soube que o partido estava em boas mãos (apesar de já ter sido nessa altura um apoiante “à distância” de Hillary, o que tornou a acontecer em 2016).

Porém, fiquei sempre com a ideia que o extremismo político nos USA, tal como o resto do país, é grande, e que tinha tendência para crescer. Se a ala mais “radical” do Partido Democrata, mas principalmente a dos independentes que acabam por votar nos Dems, se tornou muito visível (e disruptiva) nas últimas eleições, com os Bernie supporters a fazerem estragos (e a continuarem a fazer), o que aconteceu aos Republicanos é a todos os títulos fenomenal.

O Tea Party já tinha mostrado o quanto a ala mais conservadora/libertária do GOP pode ser disfuncional.

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No entanto, desde que Trump fez o seu primeiro discurso como candidato oficial à nomeação pelos Republicanos, que as coisas ganharam uma proporção Dantesca.

Não vale a pena estar a rever aqui todos os argumentos que Donald Trump fez como candidato, ou o quanto a máquina propagandista da FOX-News, Breitbart News, Drudge Report, InfoWars ajudou a impulsionar a candidatura Trump, ou até mesmo a ajuda externa, por parte do Kremlin a semear má informação e histórias negativas no eleitorado Americano. O que vale a pena rever novamente, é, quem continua, e continuará a suportar o Presidente dos Estados Unidos, por muito que este não seja qualificado para liderar o país.

Trump ganhou o Colégio Eleitoral e teve 46.1% dos votos. Neste momento, as sondagens dão-lhe, em termos de apoio declarado, entre 35 a 38% do eleitorado. Indicadores fiáveis dizem que o valor mais baixo que Trump poderá alcançar são entre 30 a 33%. Estes 30%, vamos dizer, 35 milhões de Americanos, não votaram em Trump. Votaram sim numa ideia, que, por acaso, é personificada por Trump.

Sou muitas vezes confrontado, pelos meus amigos e conhecidos, com a pergunta “mas como é possível que Trump continue a ter tanta gente que diz o apoiar, independentemente do que ele fizer?” Porque, para estes Americanos, não são questões económicas, ou militares, ou sociais que são importantes. São as culturais.

Estes 35 milhões de Americanos gostam da ideia que um Presidente Republicano branco destrua o legado de um Presidente negro, bem-sucedido. Que os liberais, e as suas ideias progressista, sejam envergonhados, e se possível, humilhados. Que os estrangeiros sejam tratados como cidadãos de segunda, e que as minorias saibam que ainda é o white establishment que manda no país. Porque estes votantes, não tendo educação, desprezam quem a tenha, e faça uso dela. Porque não são sofisticados, abominam que o seja, e que actue nesse princípio. Porque não compreendendo a complexidade das coisas, detestam quem tenha uma opinião mais elaborada.

Porque, dentro destes 35 milhões, muitos continuaram a ser racistas, xenófobos, misóginos, homofóbicos, intolerantes religiosos, e odeiam quem defenda o contrário e queira uma América pluralista, inclusiva, socialmente e economicamente justa.

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Trump já perdeu quase metade do eleitorado Republicano que tinha votado nele porque “queria uma mudança”, e agora viram o erro terrível que cometeram. No entanto, a outra metade, aquela que diz que está confortável com a ideia que Trump se possa tornar num ditador, se for o seu tipo de ditador, esses irão continuar fiéis até, e como dizemos os nossos amigos Americanos, the bitter end.

Esperamos é que fim seja mais cedo do que tarde.

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