O Trumpismo e as eleições na Europa

Das poucas (muito poucas) coisas boas que se pode tirar da eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos, uma delas tem sido o efeito (juntamente com o Brexit, e com o “sentimento de culpa” que esse voto causou no Reino Unido) no despertar de consciências para as consequências de, na política, se tomar… vamos dizer, más decisões.

O desastre que temos visto do outro lado do Atlântico, a juntar à cada vez mais clara influência que a Rússia tenta ter em processos democráticos no ocidente, fez com que os votantes, a imprensa, e até mesmo os aparelhos políticos, começassem a assumir uma posição muito mais crítica, e vigilante, sobre as intenções que certos partidos têm (de uma forma mais, ou menos, declarada) para governar os seus países, ou a Europa.

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E esse efeito foi visto, com mais contundência em França. Depois dos ataques terroristas em Paris, no mês de abril, Trump chegou a dizer que Le Pen seria beneficiada por esse acontecimento, para além de ter expressado, de uma forma mais ou menos velada, que preferia que fosse a candidata da Frente Nacional a ganhar. Marine Le Pen teve 34% dos votos na segunda ronda, que acabou por ser francamente menos do previstos 40 a 45% que alguns analistas lhe davam no final de 2016. Também não ajudou Marine que os Franceses a vissem tão “perto” de Putin, tanto ideologicamente, como financeiramente. A tudo isso juntou-se descalabro que foi o “dump” de e-mails da campanha Macron pela Wikileaks, a minutos do período de reflexão antes do dia da votação, que neste caso não teve o efeito desejado (por parte do Wikileaks) por causa do eleitorado Francês ser bem mais sofisticado do que o Americano).

FN

Antes das eleições em França, já se tinham vistos alguns sinais que a extrema-direita podia estar ligeiro declínio no Velho Continente, quando nas eleições de março nos Países Baixos, o PVV (Partij voor de Vrijheid) de Geert Wilders, teve 13% dos votos. A meio de dezembro, as intenções de voto para o PVV estavam nos 22%, com Wilders a gabar a vitória de Trump e a juntar o populismo do PVV à mensagem da Campanha Trump nos U.S.

PVV

E podemos falar do que “acabamos de assistir” no Reino Unido, onde outro partido que se quis “colar” ao “efeito Trump” (particularmente depois do que se viu com o ridículo Nigel Farage a fazer de “poodle amestrado” do Presidente Americano),

farage

o UKIP (UK Independence Party), que tinha tido 13% dos votos em 2015, e grande motor da campanha do Brexit, teve… 2%(!) dos votos, e perdeu o único MP que tinha na House of Commons.

UKIP

O próximo grande ponto de interesse é a Alemanha, com as eleições para o Bundestag em setembro. O CDU/CSU de Angela Merkel está na pole position a nível de intenção de voto, sendo que o Partido Democrático de Martin Schulz pode dar alguma disputa pelo equilíbrio de forças políticas na Alemanha. O que é bom é que tanto um como o outro candidato são pró-europeus e contra o populismo (com o exemplar comportamento de Schulz a defender a Chanceler dos ataques de Trump quando o último fez a primeira visita à Europa como Presidente dos US). No entanto, o mais importante tem sido a queda do Alternative für Deutschland (AFD) de Frauke Petry, que desceu de 13% para 8%. Também aqui se observou o AFD a expressar simpatias, tanto por Trump como por Putin.  Petry que chegou a ser chamada como “o Trump da Alemanha”, por causa da simetria nas posições e populismo, arrisca-se a ser uma força política residual.

AFD

Claro que não há maneira de saber o quanto é que umas coisas se relacionam com as outras, e se o Brexit e o Trumpismo tiveram um efeito direito sobre estas tendências nos últimos meses. É verdade que o “estrago já está feito” em alguns dos casos, mas esperamos que os eleitorados estejam a aprender com os erros que se têm observado (Turquia, Brasil, Venezuela, Polónia, Rússia, USA, Brexit, entre outros) e que alguma da racionalidade política que se tem observado na Europa se mantenha uma realidade tangível, no lugar de “novas soluções” que só trazem confusão e extremismos.

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