O Trumpismo e as eleições na Europa

Nota introdutória: este é um artigo de opinião escrito por Ricardo Silvestre, dos Democratas.

Das poucas (muito poucas) coisas boas que se pode tirar da eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos, uma delas tem sido o efeito (juntamente com o Brexit, e com o “sentimento de culpa” que esse voto causou no Reino Unido) no despertar de consciências para as consequências de, na política, se tomar… vamos dizer, más decisões.

O desastre que temos visto do outro lado do Atlântico, a juntar à cada vez mais clara influência que a Rússia tenta ter em processos democráticos no ocidente, fez com que os votantes, a imprensa, e até mesmo os aparelhos políticos, começassem a assumir uma posição muito mais crítica, e vigilante, sobre as intenções que certos partidos têm (de uma forma mais, ou menos, declarada) para governar os seus países, ou a Europa.

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E esse efeito foi visto, com mais contundência em França. Depois dos ataques terroristas em Paris, no mês de abril, Trump chegou a dizer que Le Pen seria beneficiada por esse acontecimento, para além de ter expressado, de uma forma mais ou menos velada, que preferia que fosse a candidata da Frente Nacional a ganhar. Marine Le Pen teve 34% dos votos na segunda ronda, que acabou por ser francamente menos do previstos 40 a 45% que alguns analistas lhe davam no final de 2016. Também não ajudou Marine que os Franceses a vissem tão “perto” de Putin, tanto ideologicamente, como financeiramente. A tudo isso juntou-se descalabro que foi o “dump” de e-mails da campanha Macron pela Wikileaks, a minutos do período de reflexão antes do dia da votação, que neste caso não teve o efeito desejado (por parte do Wikileaks) por causa do eleitorado Francês ser bem mais sofisticado do que o Americano).

FN

Antes das eleições em França, já se tinham vistos alguns sinais que a extrema-direita podia estar ligeiro declínio no Velho Continente, quando nas eleições de março nos Países Baixos, o PVV (Partij voor de Vrijheid) de Geert Wilders, teve 13% dos votos. A meio de dezembro, as intenções de voto para o PVV estavam nos 22%, com Wilders a gabar a vitória de Trump e a juntar o populismo do PVV à mensagem da Campanha Trump nos U.S.

PVV

E podemos falar do que “acabamos de assistir” no Reino Unido, onde outro partido que se quis “colar” ao “efeito Trump” (particularmente depois do que se viu com o ridículo Nigel Farage a fazer de “poodle amestrado” do Presidente Americano),

farage

o UKIP (UK Independence Party), que tinha tido 13% dos votos em 2015, e grande motor da campanha do Brexit, teve… 2%(!) dos votos, e perdeu o único MP que tinha na House of Commons.

UKIP

O próximo grande ponto de interesse é a Alemanha, com as eleições para o Bundestag em setembro. O CDU/CSU de Angela Merkel está na pole position a nível de intenção de voto, sendo que o Partido Democrático de Martin Schulz pode dar alguma disputa pelo equilíbrio de forças políticas na Alemanha. O que é bom é que tanto um como o outro candidato são pró-europeus e contra o populismo (com o exemplar comportamento de Schulz a defender a Chanceler dos ataques de Trump quando o último fez a primeira visita à Europa como Presidente dos US). No entanto, o mais importante tem sido a queda do Alternative für Deutschland (AFD) de Frauke Petry, que desceu de 13% para 8%. Também aqui se observou o AFD a expressar simpatias, tanto por Trump como por Putin.  Petry que chegou a ser chamada como “o Trump da Alemanha”, por causa da simetria nas posições e populismo, arrisca-se a ser uma força política residual.

AFD

Claro que não há maneira de saber o quanto é que umas coisas se relacionam com as outras, e se o Brexit e o Trumpismo tiveram um efeito direito sobre estas tendências nos últimos meses. É verdade que o “estrago já está feito” em alguns dos casos, mas esperamos que os eleitorados estejam a aprender com os erros que se têm observado (Turquia, Brasil, Venezuela, Polónia, Rússia, USA, Brexit, entre outros) e que alguma da racionalidade política que se tem observado na Europa se mantenha uma realidade tangível, no lugar de “novas soluções” que só trazem confusão e extremismos.

(Artigo da responsabilidade de Ricardo Silvestre)

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