A “invasão” Russa
No que pode ser considerado a construção de uma nova “ordem mundial”, que se materializa aos nossos olhos cada dia que passa, já não é possível haver qualquer pretensão que a Federação Russa não é, neste momento, a maior ameaça à coesão do mundo Ocidental, ou pelo menos como conhecemos essa coesão depois da Segunda Guerra Mundial.
Vladimir Putin têm mostrado como se joga, realmente, xadrez politica a dez dimensões. A Rússia montou um plano elaborado, completo, paciente, para conseguir minar o que tinha sido até recentemente um bloco de países que lhe faziam frente, tanto a nível económico (com sanções), político (com pressões diplomáticas), geoestratégico (equilíbrio de influencias regionais) e até mesmo militar (com a NATO a servir de dissuasor).
Vejamos alguns casos.
Mais de um milhão de migrantes chegou em 2015 à Europa, e isso está a colocar muita pressão nos países da bacia Mediterrânica. Também tem causado muita tensão entre países Europeus, e membros da União Europeia, provocada por faltas de acordos entre os estados membros sobre como gerir a crise. Além disso há a questão financeira, de milhões de Euros que estão a ser usados, não tanto para resolver o problema, mas para o conter. A situação é tão perversa que a Turquia usa a questão dos migrantes e refugiados como uma arma de chantagem.
A grande proporção dos migrantes e refugiados são Sírios. E nessa grande proporção, é maior ainda aquela que se refere a pessoas que fogem da guerra civil na Síria, mais do que por causa das ações do Daesh.
A intervenção da Rússia na guerra da Síria, para além da ajuda óbvia ao cliente Bashar al-Assad (sendo que o clientelismo já vem desde o Assad pai, Hafez al-Assad) serve também para estabelecer uma influência local, com relação direta a uma das potências regionais, o Irão. No entanto, esse é um jogo “a longo prazo”. No prazo bem mais curto, o envolvimento da Rússia na guerra civil da Síria, como é o caso mais emblemático de Alepo, não tem servido para combater o Daesh, como inicialmente propagandeado, mas sim para aumentar a pressão sobre os rebeldes Sírios, e forçar ainda mais as populações que fogem da guerra civil a migrar para Norte.

Se a Rússia está a criar a crise dos migrantes para destabilizar a Europa, está a funcionar. A União Europeia está a ter sérios problemas por causa de migrantes e refugiados, que ameaça destabilizar politicamente, e até mesmo socialmente, os países membros.
Se por um lado não se pode afirmar como um facto concreto que esta tenha sido a intenção da Rússia inundar países Europeus com migrantes e refugiados, já bem diferente é a óbvia manipulação da opinião pública desses paises, como é o exemplo da Alemanha e do Reino Unido, onde outlets pseudo-notíciosos, como é o caso da RT e da Sputnik, ambos sob o controlo estatal Russo, criam ansiedade na população sobre a questão da crise dos migrantes, aumentando o medo, e a desconfiança, dos eleitores nalguns governos nacionais, quando estes apresentam soluções moderadas para o problema.
Alguns destes exemplos foram artigos difundidos por estes outlets sobre “a União Europeia ser uma criação da CIA”, ou que existe uma “lavagem cerebral” dos Britânicos no que se trata da relação entre o Reno Unido e a Europa. O próprio Nick Farage, do UKIP, era um convidado regular na RT pré campanha a favor da saída, sendo inclusivamente lhe oferecido um programa à sua responsabilidade nesse canal depois do Brexit ter acontecido. Noutro exemplo, a Embaixada Russa em Londres enviou um tweet onde dizia que “O Governo Alemão lançou o país para debaixo dos pés dos migrantes, como se fosse um tapete, e agora quer esconder os seus [dos migrantes] crimes para debaixo da carpete.”
Depois há a questão da intromissão direta com eleições livres e democráticas. Os Serviços de Segurança, tanto da Alemanha, como da União Europeia, já acusaram a Rússia de criar uma “guerra de informação” contra a Alemanha Serviços de inteligência Francesa já fizeram saber que há indícios de uma preparação, em grande escala, de uma intervenção Russa nas eleições francesas de 2017. Para já, o que se sabe é que Sputnik, em 2014, contribuiu com 470.000 Euros para um canal televisivo fundado por um antigo membro da Front National. E o próprio partido, recebeu 10 milhões através de um empréstimo pelo First Czech Russian Bank que está sob controlo do Kremlin. A juntar a isso, é conhecido que Marine Le Pen já de deslocou à Rússia para encontros com Putin.
O que é mais preocupante é que, o que se observa na Europa foi também apresentado para todo o mundo ver nos Estados Unidos, durante o processo de eleição deste novembro para a Casa Branca.
Três organismos Americanos, a Casa Branca, o Director of National Inteligence e o Department of Homeland Security fizeram saber que, não só o roubo, e divulgação, de e-mails do Democratic National Committee (DNC) e do Clinton Campaign Chairman John Podesta, tinha sido realizado por hackers ao serviço do Kremlin (e com o envolvimento direto de Putin), como o objetivo era “interferir com as eleições Americanas”.

Hackers como “Fancy Bear” ou “APT28” pertencem aos serviços de inteligência Russa, sendo que “Fancy Bear” terá também tido acesso a dezenas de organizações Europeias. Esta informação foi depois canalizada para o que é, para todos os efeitos, outros outlets associados com os Serviços de Inteligência Russa, como é o caso de Guccifer 2.0 e o Wikileaks (mais sobre isto num momento).
Nos Estados Unidos, o efeito é inegável. Não só, num primeiro momento, ter-se tornado público os mails do DNC criou uma divisão muito profunda entre a fação Bernie Sanders e Haillry Clinton, como durante meses, os mail de Podesta, principalmente por causa da perceção que Hillary Clinton podia estar a fazer alguma ilegalidade com a Fundação Clinton, ou sob o comando de banqueiros de Wall Street, criou uma erosão da imagem da candidata (que já não tinha quase nenhum espaço de manobra) para valores de popularidade muito baixos.
O mesmo modelo está agora a ser usado na Europa. Novamente o Wikileaks, e com o suspeito de tentativa de violação Assange (à espera de ser julgado na Suécia) a liderar o processo, começou mais uma campanha de libertação de informação, de uma forma organizada e intermitente, para desacreditar a Chanceler Angela Merkel, aquela que é, neste momento, a líder da resistência à tentativa de influência da Rússia no Ocidente.

Se pensarmos que o pior pode acontecer, e depois do Brexit, da tomada da Casa Branca por um Presidente-eleito alinhado com os interesses de Putin, da influência nas eleições francesas, holandesas, e agora alemãs (com a ajuda do solícito Alternative für Deutschland), deixará de ser apenas uma manobra para deixarem de haver sanções à Rússia, mas pode se tornar em algo muito mais estrutural, com a destruição da União Europeia.
Portanto, cabe aos defensores da democracia e da liberdade, lutar contra esta vaga de fundo, que se ameaça tornar num tsunami. Isso implica lutar localmente (em Portugal com um despertar de consciências e pressão política sobre os nossos órgãos de soberania), como globalmente, com apoio a iniciativas para combater o efeito nefasto da intromissão da Rússia em eleições de outros países, na obstrução de tendências expansionistas desse país, e na tentativa de destabilizar blocos políticos regionais por parte do Presidente Russo.
E o tempo escasseia.
(Artigo da responsabilidade de Ricardo Silvestre)
