A Administração Trump e o globo
Dos muitos desastres que significa termos uma Administração Trump na Casa Branca, um que ameaça ser global, é a incapacidade do Presidente-eleito de querer entender, mudar de opinião, ou ter uma ação positiva, na luta contra as alterações climáticas globais.
A concretizarem-se as “políticas” que Donald Trump apresentou durante a campanha, temos más notícias para o mundo, e claro, para os seres biológicos que nele habitam. Pode-se perder o frágil progresso que se conseguiu fazer, ao criar uma coligação mundial para lidar com o problema. Usando uma analogia muito a propósito, esse progresso pode-se… evaporar facilmente.
Os maus sinais começaram quando o agora Presidente-eleito publicou um Tweet onde dizia que “o aquecimento global é uma mentira criada pelos Chineses”. Durante o período das Eleições Primárias, o candidato Trump deliciou a multidão conspiratória, dizendo que “não acredito que o aquecimento global seja da responsabilidade de humanos”, ou que “é uma loucura” pensar que alterações climáticas são o problema mais importante para Humanidade (ou para os Estados Unidos), acrescentando que não compreendia como é que o Presidente Obama podia estar a perseguir os acordos de Paris, quando “o mundo está numa confusão (…) que situação ridícula”.

O Presidente-eleito disse também que tenciona anular algumas das diretivas presidenciais que o Presidente Obama decretou para reduzir emissões do dióxido de carbono nos Estados Unidos, incluindo o Clean Power Plan. É prerrogativa do futuro presidente anular, ou enfraquecer diretivas anteriores, ainda mais sabendo que têm a Casa dos Representantes e o Senado sobre controlo Republicano. A perspetiva é tão assustadora, que se fala entre círculos Republicanos, mais perto das empresas de carvão e petróleo, ser proposta uma lei (que teria aprovação pelo futuro Presidente) que proibiria a EPA de tentar regulamentar as emissões de CO2 na América. Não menos preocupante é a intenção do Presidente-eleito de retirar os Estados Unidos dos acordos climáticos de Paris. Tecnicamente, os USA não podem desvincular-se por quatro anos, mas para todos os efeitos, um Presidente Trump pode simplesmente ignorar qualquer recomendação desses acordos. A Administração Obama tentou liderar pelo exemplo, e havia o compromisso de reduzir, até 2025, 28% da produção de gases que provocam o efeito estufa. Igualmente, à custa de muita diplomacia, os Estados Unidos tinham conseguido sentar à mesa países como a China, para haver um esforço por parte das economias emergentes para reduzirem também os níveis de emissões.

Depois seria um processo de cooperação, e pressão, de uns parceiros sobre os outros, de forma a todos cumprirem com as metas. Com uma Administração Trump na Casa Branca, isso já não tem razão de existir, uma vez que países como a Índia e a China podem também argumentar que não querem cumprir os acordos. Isso significa mais poluição no ar, mais emissões de carbono, mais aquecimento da atmosfera, mais degelos prematuros, etc. Sem uma redução drástica nas emissões de CO2, as temperaturas vão continuar a subir e, no momento em que as calotas polares da Groenlândia e da Antártida derreterem para além dos limites mínimos, já não será possível reverter o mal feito. Esta não é uma questão local, ou de ideologia política. É o futuro da humanidade em jogo, para os nossos netos, quem sabe filhos, e quem sabe, nós próprios. Claro que, com o Presidente-eleito, o que hoje é uma coisa, amanhã é outra diferente, no caso de haver um qualquer interesse económico, ou simplesmente por quem alguém lhe disse para mudar de ideia (já lá vamos). Assim, o Presidente-eleito já disse que aceita que “haja conectividade entre a ação humana e alterações climáticas”, que “está com a mente aberta sobre esse problema”, e que iria “ver cuidadosamente a questão”. Apesar de tudo isso, um dos seus primeiros atos foi escolher Myron Ebell, um conhecido climate change denier, para chefiar a equipa de transição da Enviromental Protection Agency (EPA). Ainda pior, para direitor da agência, escolheu o Procurador Público do Estado do Oklahoma, Scott Pruitt, um conhecido critico da Agência. Faltará saber se a nomeação passará no Senado.
Há mecanismos, principalmente internos aos USA, que podem fazer as coisas manterem-se, pelo menos no status quo, até termos uma Administração Democrata na Casa Branca. Nomeadamente, o Presidente-eleito vai perceber que reverter regulamentação climática deixada pelo Presidente Obama vai ser muito mais difícil do que o esperado. Nos Estados Unidos, a capacidade de litigar decisões Presidenciais é muito fácil de acontecer, e grupos de proteção do ambiente estão preparados para levar a luta até às últimas consequências. Já existe o precedente da Administração Bush ter descoberto, na década de 2000, que fazer desaparecer regulamentações anti proteção do ambiente não é fácil, mesmo num país industrializado como os US.
Igualmente há a questão financeira. Como diz o astrofísico Neil deGrasse Tyson, que serviu em painéis científicos durante a Administração Bush, “os Republicanos, acima de qualquer coisa, não querem morrer pobres”, e as fontes de energia renováveis são financeiramente vantajosas; energia eólica, energia solar, carros elétricos vão sendo cada vez mais acessíveis e mais baratos de criar e com vendas em franca expansão. Pode ser o próprio mercado a exigir a uma Administração Trump (e a todas as outras depois disso) que os atuais modelos de produção energética sejam abandonados, por serem demasiado caros para o retorno que se obtém.

Finalmente há a questão da sobrevivência e da saúde pública. A China e a India vêm-se sem outra opção senão combater as alterações climáticas e a poluição. É sobejamente conhecido como a fraca qualidade do ar em Pequim e Deli está a criar problemas insustentáveis para essas grandes cidades. E contrapartidas “ecológicas” comecem a ser exigidas, logo à partida, em negociações sobre questões mais alargadas de parcerias económicas e/ou estratégicas.
O outro “sinal de esperança” é o interesse que Ivanka Trump parece ter sobre a questão.

Graças à admiração desmedida (e vamos ficar só por aqui para não insinuar mais nada) do Donald para com a filha, parece que Ivanka pode ser uma campeã pela causa, chegando inclusive a haver uma reunião com o Vice-Presidente Al Gore e os Trumps (pai e filha), assim como com o actor Leonardo DiCaprio, algo que deve ter deixado os apoiantes de Trump, assim como alguns dos interesses económicos da indústria do carvão e do petróleo, sem saber o que pensar.
Há assim, muito trabalho para fazer nos próximos anos, e esperar que não passemos um ponto de não retorno nos próximos quatro anos, para depois tornar a voltar ao caminho certo.
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Ricardo Silvestre
Membro da Comissão Instaladora dos Democratas
Membro Individual do ALDE Party
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Nota: As opiniões no artigo são da responsabilidade do autor, e não refletem, necessariamente, posições dos Democratas.
